quarta-feira, agosto 05, 2015

Soltar, soltar....

"(...) Refastelada na poltrona com Cleo, tive vontade de sentir lã a deslizar novamente entre os dedos. A delicadeza de teia de aranha das roupas de bebé estava além da minha capacidade, por isso, comprei três novelos de lã azul (grossa) e umas agulhas grossas e comecei a fazer um cachecol simples para Rob.

O ritmo do clique das agulhas é tranquilizador, como o bater de um coração. Como um único fio de lã pode ser entrelaçado para criar uma peça de roupa tridimensional é um mistério quase tão grande como pensar que um aglomerado de células se multiplica para fazer um bebé.

Tricotar e gravidez têm muito em comum. Ambas as coisas parecem acontecer facilmente, contudo exigem paciência, fé no futuro e dedicação ao melhor resultado possível.
Tal como uma grávida, ver uma mulher a tricotar é estranho para quem não compreende o milagre da criação. Os cotovelos projetam-se para fora como asas deformadas, a lã arrasta-se pelo chão, aparentemente ao acaso. A mulher que tricota está demasiado concentrada para se preocupar com as aparências. Embora possa parecer desmazelada, nunca podem acusá-la de preguiça. Quem trabalha com agulhas está envolvida em algo maior do que ela - um ato de criação. Num mundo mais mais respeitoso, quem tricota nunca seria interrompida. Contudo, a artesã está habituada a afrontas. Pára a meio de uma carreira, correndo o risco de deixar cair uma malha, para atender o telefone ou abrir uma porta, sem se queixar.

Cada ponto é um passo na viagem para uma camisola nova, possivelmente uma vida nova.Quando a peça está terminada, ao fim de um mês ou seis, quem fez será uma pessoa diferente. E não apenas porque o tempo passou - mas porque acrescentou algo ao mundo.

Cada ponto é completo em si próprio, apesar de estar ligado a pontos passados e futuros. Enquanto enrolava a lã às agulhas para formar cada ponto, pensava em Sam e rematava gentilmente.

Cruzar agulhas, puxar a lã, soltar.... cruzar agulhas, puxar a lã soltar... Se eu praticasse isto dez mil vezes, ou um milhão, talvez a minha alma fizesse o mesmo. Soltar, soltar....(...)"
 

in Cleo, Helen Brown

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