segunda-feira, agosto 24, 2015

Arte de tricotar

Embora seja efetivamente uma prática milenar, existem muito poucas evidências sobre quando, onde e como terá surgido a arte de tricotar. No entanto, existem algumas referências antigas e até achados arqueológicos que nos permitem traçar um pouco da longa história e evolução do tricô desde a antiguidade.
Uma das primeiras referências ao tricô que se conhecem é a de Homero na sua famosa obra “Odisseia”, provavelmente datada de finais do século VIII a.C. Num dos episódios, apresenta-nos uma Penélope desgostosa pelo não regresso do seu marido Ulisses, passando o dia a tricotar uma peça que à noite é desfeita, adiando assim a ordem do seu pai para escolher um novo pretendente – o pintor inglês John William Waterhouse mostra-nos esta cena no quadro “Penelope and the Suitors” (“Penélope e os Pretendentes”) de 1912. Avançando no tempo, até ao século XIV, o pintor alemão Mestre Bertram retrata, no seu “Visita do Anjo”, a Virgem Maria tricotando uma camisola.
A arqueologia também ajudou a recuar cada vez mais no tempo a prática da arte de tricotar, embora seja difícil encontrar peças feitas de lã ou algodão por serem materiais perecíveis. Nesse sentido, os exemplares mais antigos que se conhecem datam de 1000 a.C. e trata-se de meias descobertas no Egito com desenhos considerados bastante complexos, o que leva os arqueólogos a acreditarem que a técnica é extremamente antiga, pois para chegar a tal nível de complexidade são precisos muitos anos de tentativas falhadas ou menos perfeitas. Em 1964, uma equipa de arqueólogos liderada pelo explorador norueguês Helge Ingstad e a arqueóloga Anne Stine Ingstad descobriram, em L’Anse aux Meadows, na Terra Nova, província do Canadá, uma agulha de tricô datada de cerca do ano 1000, possível data de fundação da aldeia viking onde foi encontrada.

O que é o tricô?

O tricô pode ser definido como a arte de entrelaçar fio com a ajuda de uma ou duas agulhas de tricotar, dando-se-lhe a forma que se pretender. Essa forma pode ser reta ou redonda e, para este último, recorre-se ao uso de duas agulhas ligadas por um fio forte de nylon. Numa fase inicial, o têxtil utilizado era apenas o algodão, mas com a prática da pastorícia, e posteriormente com o auxílio de máquinas, foi sendo possível utilizar outros materiais, destacando-se a lã, caxemira, angorá e o linho.

A massificação do tricô

Acredita-se que a prática de tricotar terá tido então origem no Egito, embora seja apenas uma teoria baseada nas descobertas aí feitas. É no entanto certo de que o tricô era presença habitual na Europa Medieval, onde a maioria das pessoas vestia lã e linho. Já o dizia Jacques le Goff no seu livro de 1994, “O Homem Medieval”, onde afirma que a época Medieval “é uma época que, mais do que qualquer outra, nos aparece marcada pelas suas brancas roupagens de igrejas (…), tapeçarias, bordados, tecidos de variadas cores e com desenhos singulares (…) ”.
Le Goff também nos diz que as artesãs trabalhavam nas lojas dos maridos e muitas vezes ficavam responsáveis por aquelas depois de estes morrerem. Para a sociedade medieval, era importante manter a mulher ocupada e era o próprio pai que incentivava as filhas a dedicarem-se aos trabalhos manuais. Era também considerada uma mais-valia caso a mulher enviuvasse ou caísse numa situação de pobreza, pois esta atividade tinha uma forte vertente económica, sendo utilizada não só para o uso pessoal da família mas também permitindo obter lucros com a sua venda. Isto sobretudo antes da crise que afetou a Europa no século XIV.
Em 1589, o inglês William Lee inventou a primeira máquina de tricotar, cujos princípios básicos de funcionamento ainda hoje vigoram e foi no século XIX que o uso da máquina de tricô se generalizou em massa, devido à industrialização. Desde então teve uma forte importância durante as guerras mundiais, para vestir soldados e civis.

O tricô nos dias de hoje

Apesar de ter sido ultrapassada por processos mecânicos e industriais, a verdade é que o tricô manual voltou a estar na moda, ora como passatempo, ora como pequeno negócio. Como afirma Joanne Turney no livro “The Culture of Knitting”, existem cada vez mais pessoas que optam por comprar peças únicas e exclusivas tricotadas por um profissional, que podem mesmo atingir valores avultados quanto maior for a técnica e a originalidade. Não existem limites para a imaginação, a arte de tricotar está aperfeiçoada e existem inúmeros tipos de fios e cores que permitem a criação de peças originais e criativas.
O tricô é praticado por lazer ou paixão e já não representa um meio de subsistência, embora possa constituir um lucro extra, pois, tal como na Idade Média, há quem o faça para uso pessoal mas também para venda.
Nas décadas de 60 e 70 do século XX usar peças de tricô era estar na moda e nos dias de hoje não é exceção. Desde as lojas de fast fashion às marcas de moda mais luxuosas, hoje não faltam peças tricotadas em todas as suas coleções, até porque o tricô está efetivamente na moda!

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